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Tylenol e Autismo? O Que a Ciência Realmente Diz — e Por que a Polêmica Está de Volta.

O presidente dos EUA aconselhou as pessoas: ‘Não tomem Tylenol’.

Em 22 de setembro, a FDA (agência reguladora dos EUA) anunciou que acrescentaria um alerta ao rótulo de medicamentos contendo paracetamol (como o Tylenol). O comunicado mencionava uma “possível associação” entre o uso da droga durante a gravidez e o diagnóstico de autismo em crianças.

A notícia, por si só, já provocaria debate.

Mas a situação se inflamou quando o então presidente dos EUA, Donald Trump, declarou publicamente: Don’t take Tylenol. Fight like hell not to take it.” (Não tomem Tylenol. Lutem com todas as forças para não tomá-lo.)
Sem nuances. Sem contexto. Sem ciência.

Só que a própria comunidade científica reagiu — e com preocupação.

Existe realmente ligação entre paracetamol na gravidez e autismo? A resposta é: não há evidência robusta.

O paracetamol é um dos medicamentos mais comuns no mundo — usado por cerca de metade das gestantes globalmente. Por isso, ele é frequentemente investigado quando surgem dúvidas de segurança.

Mas, segundo especialistas entrevistados pela Nature, os estudos mais bem conduzidos não mostram ligação entre o uso da medicação durante a gestação e autismo.

James Cusack, pesquisador e CEO da organização Autistica — e ele próprio autista — é direto:

Não há evidência definitiva de que o paracetamol cause autismo. Quando alguma associação aparece, ela é muito, muito pequena.

Helen Tager-Flusberg, psicóloga da Universidade de Boston, reforça:

Não pensamos que tomar acetaminofeno esteja contribuindo para causar autismo.

O maior estudo já feito: mais de 2,5 milhões de crianças

O epidemiologista Viktor Ahlqvist analisou dados de 2,5 milhões de crianças na Suécia (1995–2019), cruzando informações sobre:

  • prescrições de paracetamol,

  • relatos de uso durante o pré-natal,

  • diagnósticos posteriores de autismo.

O resultado?

  • 1,42% das crianças expostas tinham diagnóstico de autismo

  • 1,33% das não expostas também tinham.

Uma diferença mínima, que desapareceu quando os pesquisadores compararam irmãos — ou seja, crianças criadas no mesmo ambiente e expostas à mesma saúde materna.

Conclusão do estudo: nenhuma associação.

Outro estudo japonês com 200.000 crianças (2025), também com comparação entre irmãos, encontrou exatamente o mesmo: nenhum vínculo.

Mas e os estudos que dizem o contrário?

Uma revisão publicada em Environmental Health (2025) sugeriu uma associação — mas especialistas destacaram que:

  • os estudos incluídos tinham metodologias heterogêneas,

  • muitos eram observacionais e vulneráveis a confundimento,

  • e resultados inconsistentes.

Uma revisão independente, apenas com estudos mais robustos, publicada em Obstetrics & Gynecology (2025), concluiu:

A exposição intrauterina ao acetaminofeno provavelmente não confere risco clinicamente importante para autismo.

⚠️ Por que “culpar o paracetamol” pode ser perigoso?

Porque:

1. Gestantes possuem poucas opções de analgésicos seguros.

Paracetamol é, de longe, o mais seguro — e tem um dos mais longos históricos de uso.

Desencorajar seu uso pode deixar gestantes sem tratamento para dor ou febre, o que também traz riscos.

Helen Tager-Flusberg alerta:

Aconselhar gestantes a não usar paracetamol seria perigosíssimo.

2. Isso pode gerar culpa injusta nas famílias.

Ahlqvist resume:

Risco de reforçar estigma e autopunição — sem evidência.

3. Desvia a atenção do que realmente importa.

O próprio aumento no número de diagnósticos de autismo nos últimos anos se deve muito mais a:

  • maior conscientização;

  • mudança nos critérios diagnósticos;

  • maior acesso a avaliação.

E não a fatores isolados como um analgésico amplamente usado há décadas.

No fim das contas: o que a ciência diz hoje?

Com base nas melhores evidências disponíveis:

❌ O paracetamol não causa autismo.

❌ Vacinas não causam autismo.

❗ A associação citada pela FDA é fraca, inconsistente e provavelmente resultado de fatores de confusão.

✅ O medicamento continua sendo considerado seguro durante a gravidez, quando usado de acordo com recomendações médicas.

✅ A desinformação, por outro lado, pode causar danos reais.

Por que isso importa agora?

Em tempos de discursos simplificados, a ciência precisa ser ainda mais clara.

Autismo é uma condição complexa, com múltiplos fatores (genéticos, ambientais, biológicos).
Reduzi-lo a uma causa única — especialmente uma que não tem evidência — é injusto, impreciso e perigoso.

E como o artigo da Nature conclui, no centro dessa polêmica está uma tentativa humana recorrente de buscar respostas simples para problemas complexos.

Referências

Nature. Trump links autism and Tylenol: is there any truth to it? Vol. 646, 2 October 2025, pp. 13–14.

Ahlqvist, V. H. et al. JAMA 331, 1205–1214 (2024).

Okubo, Y. et al. Paediatr. Perinat. Epidemiol. (2025).

Prada, D. et al. Environmental Health 24, 56 (2025).

Damkier, P. et al. Obstet. Gynecol. 145, 168–176 (2025).

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