O Brasil acaba de alcançar uma das maiores conquistas da ciência latino-americana no controle de arboviroses – e o protagonista dessa história é o pesquisador Luciano Moreira, destaque na Nature como um dos “Nature’s 10” do ano de 2025.
Moreira lidera uma operação inédita: uma fábrica que produz bilhões de mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia, capazes de impedir a transmissão de dengue, zika e chikungunya.
Como funciona essa tecnologia?
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dificulta a replicação dos vírus dentro do inseto;
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reduz drasticamente a capacidade de transmissão;
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passa de geração para geração, garantindo efeito duradouro.
O resultado? Menos mosquitos capazes de transmitir doenças.
A maior fábrica do mundo — no Brasil
Essa operação é liderada pela Wobito do Brasil, da qual Luciano Moreira é CEO. Hoje, a equipe já conta com 75 profissionais dedicados exclusivamente a essa missão.
Resultados que impressionam
A pesquisa brasileira nasceu de colaborações com laboratórios na Austrália e se transformou em referência global. Tanto que há demanda internacional — e o Brasil já recusou pedidos de outros países para priorizar o território nacional, onde só em 2024 a dengue matou mais de 6.300 pessoas.
Cidades que adotaram a estratégia têm mostrado quedas impressionantes:
Em Niterói (RJ), a dengue caiu 89% após a liberação dos mosquitos carreadores de Wolbachia.
Em outras regiões do país, autoridades de saúde já reconhecem a técnica como política pública oficial.
| Fonte: FioTec (Fiocruz) |
O estudo por trás da revolução Wolbachia contra a dengue
O brasileiro Luciano Andrade Moreira tornou-se protagonista de uma verdadeira revolução no controle de doenças transmitidas por mosquitos. A base dessa transformação? Um estudo seminal publicado em 2009 no periódico Cell — que demonstrou pela primeira vez, em laboratório, que mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia têm sua capacidade de transmitir vírus como dengue drasticamente reduzida.
Principais achados
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O estudo observou que a Wolbachia inibe a replicação e disseminação do vírus da dengue dentro do mosquito.
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Como resultado, mosquitos infectados com Wolbachia mostraram potencial de transmissão muito menor comparados aos mosquitos “selvagens” (sem Wolbachia).
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Em testes, 14 dias após infecção com dengue, a transmissão foi completamente bloqueada em pelo menos 37,5% dos mosquitos com Wolbachia.
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Além da dengue, o estudo apontou que a Wolbachia limitava também a infecção por outros vírus transmitidos pelo Aedes aegypti — como o da Chikungunya — e até parasitas como os da malária aviária.
Esses resultados foram decisivos — provaram que não era preciso “exterminar” o mosquito para combater arboviroses; bastava transformar a população de mosquitos em “mosquitos inofensivos”, incapazes de transmitir doenças.
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Wolbachia em verde (Alexa 488)
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Vírus da dengue (DENV-2) em vermelho (Alexa 594)
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DNA celular em azul (DAPI)
Isso permitiu identificar exatamente onde cada um estava nos tecidos do mosquito.
🦟 Mosquitos sem Wolbachia
Nos mosquitos PGYP1.tet (– Wolb), 14 dias após a infecção com DENV-2, o vírus aparece claramente:
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nas células dos omatídeos (componentes dos olhos),
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no tecido adiposo,
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e em outras regiões distribuídas pelo corpo.
O vírus coloniza o organismo e está pronto para ser transmitido ao picar uma pessoa.
🦟 Mosquitos com Wolbachia
Nos mosquitos PGYP1 (+ Wolb), as imagens contam outra história:
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a Wolbachia aparece nos olhos, cérebro e tecido adiposo;
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mas não há sinal do vírus da dengue.
Essa ausência completa indica que o vírus não consegue se estabelecer em células já ocupadas pela Wolbachia — um fenômeno chamado exclusão celular.
O que isso significa?
O estudo fornece evidências visuais e diretas de que:
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a Wolbachia altera o ambiente celular,
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limita recursos que o vírus precisa,
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ativa respostas antivirais do mosquito,
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e impede que o vírus alcance os tecidos necessários para a transmissão.
Essa é uma das bases científicas mais sólidas que explicam o sucesso do Método Wolbachia no Brasil e no mundo.
(A, C, E) Mosquitos PGYP1.tet (– Wolb), 14 dias após injeção torácica com DENV-2. O vírus da dengue é visível em células dos omatídeos (A e C) e no tecido adiposo (E).
(B, D, F) Mosquitos PGYP1 (+ Wolb), 14 dias após injeção torácica com DENV-2. A Wolbachia pode ser observada nos omatídeos e no cérebro (B e D) e no tecido adiposo (F). Em contraste, nenhum vírus da dengue foi detectado.
Implicações e avanço para aplicação prática
Segundo os autores, incluindo Moreira, a Wolbachia provavelmente interfere na transmissão do vírus por dois mecanismos principais:
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competição por recursos dentro das células do mosquito (nutrientes, espaço intracelular etc.), dificultando a proliferação viral;
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estimulação de respostas antivirais naturais no mosquito — tornando o ambiente menos favorável para o vírus.
A combinação desses efeitos torna o método biológico, natural, sustentável — e de baixo risco ambiental, já que a Wolbachia é uma bactéria comum em muitos insetos e não representa perigo para humanos ou vertebrados.
Um estudo mais recente, publicado na revista BMC Microbiology em março de 2025, mostra uma nova evidência molecular que explica por que essa abordagem funciona. O estudo australiano evidencia que a infecção por Wolbachia no mosquito Aedes aegypti aumenta a expressão dos genes responsáveis por enzimas metiltransferases m6A — aquelas que colocam modificações químicas (metilação m^6A) no RNA das células do mosquito. Dessa forma, ganha força a hipótese de que o bloqueio viral não depende apenas da competição física no mosquito ou de resposta imunológica, mas também de reprogramações epigenéticas no RNA do vetor, que alteram como os genes do mosquito são lidos e empregados.
| Artigo publicado por pesquisadores da Universidade de Queensland, Austrália. |
Do laboratório à vida real: o impacto no Brasil e no mundo
Graças a esse estudo de base, ao esforço de cientistas como Moreira e parcerias internacionais, o chamado Método Wolbachia saiu dos laboratórios e começou a ser implantado no mundo real.
Além disso, outros estudos complementares (e posteriores) confirmaram e expandiram os efeitos benéficos da Wolbachia: por exemplo, reduzindo a quantidade de vírus na saliva dos mosquitos, atrasando o tempo em que o vírus se torna “transmissível” e diminuindo a frequência de expectoração de vírus — fatores diretamente ligados à probabilidade de transmissão de doenças.
Por que este é um marco da ciência brasileira e global
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Porque o estudo de 2009 provou — de forma definitiva e mensurável — que é viável “inabilitar” mosquitos para transmitir doenças, sem exterminá-los.
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Porque abriu caminho para uma intervenção ambientalmente responsável, de baixo custo e com alto impacto sanitário.
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Porque transformou-se na base do Método Wolbachia, que hoje já protege populações no Brasil e pelo mundo.
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E porque posiciona o Brasil — e seus cientistas — na vanguarda da biotecnologia aplicada à saúde pública, com reconhecimento internacional (como a inclusão de Moreira na lista “Nature’s 10” de 2025).
Por que isso importa?
Porque mostra que:
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a ciência brasileira tem peso global,
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nossas soluções podem salvar vidas no mundo todo,
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e que o combate à dengue é possível com tecnologia inovadora e produção em escala.
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