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O Babaçu como Fator de Risco para Cromoblastomicose no Maranhão: o que a Ciência Brasileira Revelou em 1995

 

A cromoblastomicose é uma infecção fúngica crônica, típica de regiões tropicais, que afeta principalmente trabalhadores rurais expostos ao solo, madeira, vegetação em decomposição e microtraumas da pele. No Maranhão — estado que concentra grande parte das palmeiras de babaçu do Brasil — um estudo publicado em 1995 trouxe uma descoberta epidemiológica importante: a casca do coco-babaçu pode ser um fator de risco significativo para a infecção humana por Fonsecaea pedrosoi, um dos principais agentes da cromoblastomicose

Este achado não apenas ampliou nossa compreensão sobre a ecologia da doença, mas também ajudou a explicar casos raros de lesões glúteas, incomuns na cromoblastomicose tradicionalmente associada aos membros inferiores.


Conceição de Maria Pedrozo e Silva

🌿 O Babaçu e seu Papel no Cotidiano Rural Maranhense

O babaçu (Orbignya phalerata) é uma palmeira abundante no Meio-Norte brasileiro, especialmente no Maranhão, onde compõe a floresta dos cocais. Sua importância econômica é enorme: estima-se que cerca de 300 mil famílias rurais dependam da extração manual das amêndoas, atividade marcada por forte esforço físico e contato direto com o ambiente. 

A quebra do coco é feita sentado no chão ou sobre as cascas do fruto, batendo-o contra o fio invertido de um machado ou bastão de madeira — uma técnica tradicional que expõe partes do corpo, especialmente a região glútea, a:

  • fibras rígidas da casca

  • fragmentos pontiagudos

  • solo contaminado

  • vegetação em decomposição

Esses elementos são ideais para microtraumas cutâneos, que funcionam como porta de entrada para fungos presentes no ambiente.

🔬Cromoblastomicose: quando o fungo encontra oportunidade

A cromoblastomicose é causada por fungos demáceos (escuros), encontrados no solo, madeira apodrecida e troncos de palmeiras — exatamente o tipo de material associado ao babaçu. Os agentes mais comuns incluem:

  • Fonsecaea pedrosoi

  • Phialophora verrucosa

Esses fungos entram na pele através de pequenos ferimentos. Por isso, as áreas mais acometidas costumam ser:

  • pernas

  • pés

  • braços

Ou seja: regiões em contato direto com o ambiente durante a lavoura.

No entanto, o estudo maranhense observou algo que fugia do padrão: lesões extensas na região glútea de dois quebradores de coco-babaçu. Isso chamou a atenção dos pesquisadores. 

👩🏽‍🌾 O achado epidemiológico: lesões glúteas em quebradores de coco

O trabalho analisou 30 pacientes com cromoblastomicose atendidos no Hospital dos Servidores do Estado do Maranhão. Entre eles, dois apresentavam lesões na região glútea, uma localização rara para a infecção. Ambos:

  • eram quebradores de coco-babaçu

  • trabalhavam nessa atividade desde a infância

  • tinham história de cerca de 10 anos de evolução da doença

  • apresentavam lesões verrucosas, coalescentes e de grande extensão

  • tiveram diagnóstico confirmado por histopatologia e cultura, isolando-se Fonsecaea pedrosoi

Esses dois casos representaram 6,6% da amostra, e sua associação direta com a atividade laboral levantou a hipótese central do estudo: o processo de quebra do coco, que expõe a região glútea a microtraumas contínuos, pode favorecer a penetração do fungo


Fonte: SILVA, Conceição de Maria P. e; ROCHA, Raquel M. da; MORENO, Janise S.; BRANCO, Maria dos Remédios F. C.; SILVA, Raimunda R.; MARQUES, Sirley G.; COSTA, Jackson Maurício L. O babaçu (Orbignya phalerata Martins) como provável fator de risco de infecção humana pelo agente da cromoblastomicose no Estado do Maranhão, Brasil. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 28, n. 1, p. 49–52, jan.–mar. 1995.

🧪 A casca do babaçu como possível reservatório do fungo

Os pesquisadores destacam que não há muitos estudos identificando quais vegetais favorecem o crescimento natural desses fungos. Mas dados prévios mostram o isolamento de agentes de cromoblastomicose a partir de:

  • troncos em decomposição

  • palmeiras apodrecidas

  • matéria orgânica úmida

Em um estudo citado pelos autores, Phialophora pedrosoi foi isolada em 28,6% das amostras de troncos de palmeiras em decomposição. Isso fortalece a suspeita de que a casca do coco-babaçu, rica em fibras rígidas e suscetível à decomposição, pode servir de habitat natural para os fungos

Morfologia de Fonsecaea pedrosoi CBS 273.66. (j) Colônia após 3 semanas de incubação; (k) conidióforos e conídios; (l) fiálides e conídios. Fonte: Queiroz-Telles F, de Hoog S, Santos DWCL, Salgado CG, Vicente VA, Bonifaz A, Roilides E, Xi L, Azevedo CDMPES, da Silva MB, Pana ZD, Colombo AL, Walsh TJ. 2017. Chromoblastomycosis. Clin Microbiol Rev 30: 233–276. https://doi.org/10.1128/CMR.00032-16.

⚠️ Por que a região glútea foi afetada?

A posição típica de trabalho dos quebradores — sentados diretamente sobre cascas do coco ou chão irregular — cria condições perfeitas para:

  • atrito repetido

  • perfurações por fibras

  • cortes superficiais

  • inoculação traumática de fungos

Isso explica por que, nesse grupo específico, a infecção ocorreu na região glútea, e não nos membros inferiores como esperado.


Quebradeiras de coco babaçu. Fonte: g1.globo.com

📍 Maranhão: um cenário de risco aumentado

O Maranhão concentra 54,2% do babaçual brasileiro. Além disso, 76,9% dos pacientes com cromoblastomicose atendidos pela equipe do estudo eram provenientes da Baixada Ocidental Maranhense — mesma região onde se concentra a atividade extrativista do babaçu.
Isso reforça a correlação entre:

  • ambiente

  • atividade econômica

  • risco de exposição microbiológica

🔎 Conclusão: o babaçu como fator de risco ocupacional

O estudo de Silva e colaboradores (1995) traz evidências convincentes de que:

  • a atividade de quebrar coco-babaçu

  • associada ao contato direto e prolongado da pele com cascas e solo

  • favorece a penetração de Fonsecaea pedrosoi, agente etiológico da cromoblastomicose

Assim, o babaçu não é apenas um recurso natural vital para a economia e cultura do Maranhão — mas também um fator ocupacional de risco que deve ser considerado em programas de vigilância, prevenção e educação em saúde.

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